La última edição do Canto Habanera de Calella de Palafrugell Não se destacou apenas pelas suas canções lendárias e atmosfera festiva, mas também pela Polêmica em torno da tentativa de censura da música 'El meu avi'Durante várias semanas, falou-se mais da decisão da Câmara Municipal do que dos preparativos do evento, dada a proposta de retirar o icônico cantor de Havana da programação oficial pela primeira vez em quase cinco décadas.
Tudo começou após a transmissão do documentário 'Murs de silenci' na TV3, que ligava o compositor da música, Monastério Josep Lluís Ortega, com uma suposta rede de exploração sexual infantil. Essas acusações, segundo as alegações da família e confirmadas por decisões judiciais da década de 80, já haviam sido rejeitadas em juízo, onde Ortega Monasterio foi absolvido. Apesar disso, a prefeita Laura Millán (PSC) defendeu a decisão de atualizar o repertório, embora em nenhum momento tenha sido oficialmente reconhecido que se tratava de censura, mas sim de um compromisso com outros clássicos e autores locais.
Uma tradição ameaçada
'El meu avi' é muito mais que uma simples canção para quem frequenta a Cantada de Habaneras.. Composta em 1968, tornou-se uma hino do gênero e um símbolo da identidade catalãDesde 1977, ela sempre encerrou o festival, sendo cantada pelo público na praia, nas varandas e nos barcos tradicionais. Para muitos, eliminá-la significaria quebrar uma das tradições culturais mais arraigadas da Costa Brava.
Nos dias que antecedem a celebração, as posições estavam entrincheiradas. Enquanto a comissão organizadora e o conselho argumentaram a necessidade de renovar e dar espaço a outras peças emblemáticas como 'La bella Lola', a sociedade civil, diferentes grupos políticos - tanto independentistas como constitucionalistas - e a própria família do compositor consideraram a iniciativa uma ataque grave ao patrimônio culturalAs redes sociais estavam cheias de pedidos para apresentações espontâneas da música e, ao longo da noite, panfletos com a letra foram distribuídos para incentivar os participantes a recuperá-la.
O clima ficou tenso desde o início do evento. No momento em que o apresentador confirmou que 'El meu avi' não encerraria a noite, o público respondeu com assobios, gritos e um aceno coletivo de lenços.Alguns até começaram a cantá-la a cappella, desafiando a decisão oficial. A pressão foi tão grande que os grupos participantes, depois de apresentarem outras peças, decidiram subir ao palco juntos e tocar a famosa habanera. A excitação e o entusiasmo contagiaram a plateia, que acompanhou a música agitando lenços brancos e cantando em uníssono, como manda a tradição.
Reação do público e dos músicos
Com este gesto, músicos e espectadores conseguiram manter o costume, transformando o que parecia uma noite de ruptura numa reafirmação coletiva da importância do patrimônio comum. A família Ortega Monasterio considerou-a uma vitória do bom senso e contra a cultura do cancelamento, e agradeceu tanto o apoio social quanto a defesa do festival por parte dos partidos políticos.
Dimensão judicial e controvérsia política
Em paralelo, A decisão da Câmara Municipal também desencadeou uma batalha política e judicial.Partidos políticos como Junts per Catalunya e Alhora organizaram protestos nas entradas do local do evento, distribuíram panfletos e denunciaram a intervenção policial como uma tentativa de "perseguição política". A prefeitura, por sua vez, argumentou que a presença policial foi uma resposta a preocupações com a segurança e à falta de autorização para alguns eventos, enfatizando que não havia, de forma alguma, a intenção de proibir eventos culturais ou censurar expressamente a música.
Por outro lado, a família anunciou a apresentação de uma queixa ação judicial contra a produtora do documentário e a Corporação Catalã de Meios Audiovisuais, exigindo uma indemnização simbólica pelos danos causados à imagem do compositor e exigindo que “a presunção de inocência e as absolvições finais não sejam ignoradas”. Insistiram também que o debate não pode distorcer o que consideram um ataque direto aos direitos fundamentais e liberdade de expressão.
A controvérsia também serviu de plataforma para uma ampla gama de opiniões sobre o papel do politicamente correto, do feminismo e do futuro das tradições catalãs. De vozes como a de Pilar Rahola, que criticou abertamente a medida, à intervenção da cantora popular "iaia Angeleta", que relembrou os anos de ditadura e defendeu veementemente a importância de proteger a cultura popular, o debate transcendeu o musical para se enraizar nos grandes dilemas sociais da atualidade.
Um clássico que perdura
Apesar da tentativa de modernização do repertório, 'My Wife' tocou novamente como a cereja do bolo na 58ª edição da Cantada de Habaneras. Para muitos, a decisão dos músicos de interpretá-la, apesar de sua exclusão oficial, fortaleceu a conexão da canção com o povo e demonstrou que ainda existem tradições que resistem à pressão política e midiática.
Percebe-se que a resistência do público e dos músicos reflete uma forte conexão com a tradição e a cultura locais, que permanecem vivas apesar das tentativas de alterá-las. A controvérsia evidenciou como as tradições podem ser interpretadas como um símbolo de identidade que transcende decisões oficiais ou controvérsias midiáticas. A decisão de manter a canção viva demonstra que, em muitos casos, a comunidade prioriza a preservação de sua história e cultura diante de pressões externas.