Se alguém pensava que Dua Lipa só sabia emplacar hits número um, é porque não prestou atenção à sua vida fora dos palcos. A estrela britânica provou ser uma leitora voraz, transformando sua paixão em algo tangível que vai muito além de uma simples recomendação nas redes sociais. Após o sucesso de sua plataforma Service95, a cantora decidiu dar um grande passo adiante... Abra sua própria biblioteca física. na emblemática cidade do Porto, um lugar que já respira literatura por todos os lados.
Este novo refúgio cultural, chamado Biblioteca Manifesto, não é uma livraria típica nem um espaço projetado apenas para tirar fotos bonitas. É uma declaração de intenções completa, uma colaboração com a histórica Livraria Lello que busca concentrar-se na censura e a liberdade de expressão. Num momento em que o acesso a certas histórias parece estar sob escrutínio em várias partes do mundo, o artista propõe um refúgio para aquelas histórias que alguns setores tentaram silenciar ou esconder do público.
Um espaço com história e arquitetura de vanguarda.

O local escolhido não poderia ser mais especial, já que a biblioteca está situada dentro do novo auditório cultural da Livraria Lello, um edifício que é Patrimônio Mundial da UNESCO e que atrai milhares de visitantes todos os anos com seu impressionante estilo neogótico. Para dar um toque de modernidade a esse cenário clássico, o espaço foi projetado por Álvaro Siza, vencedor do prestigioso Prêmio Pritzker, que conseguiu criar uma atmosfera que convida à reflexão e à tranquilidade enquanto se folheia páginas que, em sua época, eram consideradas perigosas pelos poderes estabelecidos.
Não é tarefa fácil para uma estrela pop se envolver na gestão cultural neste nível, mas Dua Lipa parece ter encontrado o cenário ideal no Porto para isso. para concretizar sua visão editorial.O projeto foi inaugurado oficialmente no final de junho, coincidindo com o festival internacional BABELL – Cidade dos Livros, e contou inclusive com a presença de autores renomados que vivenciaram pessoalmente os efeitos da censura literária. A visita custa aproximadamente 16 euros, o mesmo preço da entrada geral na livraria, e dá acesso a este santuário onde o pensamento crítico reina absoluto.
Desde que fundou seu clube do livro em 2022, a cantora construiu uma comunidade de mais de meio milhão de seguidores que aguardam ansiosamente suas recomendações mensais. Agora, essa comunidade tem um local físico permanente onde podem se encontrar. cerca de 5.000 cópias de cem títulos que a própria artista considera fundamentais para a compreensão dos conflitos e esperanças do mundo atual. É, em essência, a evolução lógica de uma plataforma que começou como um boletim informativo digital e agora possui paredes e prateleiras próprias.
A proposta rejeita o comercialismo para se concentrar no que a organização chama de "livros que desafiam as narrativas dominantes". Nesse sentido, a biblioteca funciona como um Uma voz para vozes marginalizadas devido a questões de gênero, raça ou identidade. A ideia é que os leitores não apenas virem as páginas, mas também questionem por que certos textos tornam as estruturas de controle tão desconfortáveis, transformando o ato de ler em algo que, segundo a própria Dua Lipa, pode ser verdadeiramente subversivo.
Quatro pontos-chave para compreender a resistência literária

A organização da Biblioteca de Manifestos não segue a ordem alfabética tradicional, mas sim se estrutura em torno de quatro eixos conceituais que ajudam a classificar o impacto das obras: Poder, Controle, Voz e Memória. Na seção dedicada a PoderEsta seção reúne textos que questionam diretamente quem está no comando e sob qual autoridade as normas sociais são definidas. Por outro lado, a seção sobre Controlar Explora como a tecnologia, a vigilância e a propaganda moldam nosso pensamento sem que sequer nos demos conta disso.
A categoria de Voz É talvez o mais comovente, pois recupera histórias de grupos historicamente silenciados ou excluídos do discurso público. Aqui, a literatura serve para para recuperar a autoridade narrativa daqueles que nunca tiveram permissão para contar sua própria história. Finalmente, o cerne do Memória É responsável por salvaguardar crônicas e testemunhos que correm o risco de serem apagados ou reescritos por regimes autoritários, guerras ou traumas coletivos que marcaram a história de diferentes nações.
Entre os 100 títulos selecionados, encontram-se nomes familiares a todos, mas que muitas vezes esquecemos que foram alvo de perseguição. Obras-primas como "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez, que foi proibido em distritos escolares nos Estados Unidos, ou "1984", de George Orwell, estão ao lado de textos contemporâneos como "O Conto da Aia", de Margaret Atwood. A seleção deixa claro que A censura não é coisa do passado.mas uma realidade muito presente que afeta tanto os clássicos universais quanto as novas vozes na literatura LGBTQIA+.
É impressionante ver como livros como 'Fahrenheit 451', que critica especificamente a queima de livros, acabaram sendo restrito em bibliotecas públicas de países que se consideram democráticos. É essa ironia que Dua Lipa tenta combater, oferecendo um espaço onde esses títulos não só estão disponíveis, como também são celebrados por sua coragem. Em última análise, trata-se de cada visitante decidir por si o que deve estar em sua estante e quais perguntas deseja se fazer após terminar cada capítulo.
O contexto global de um projeto necessário

A criação deste santuário literário não é um capricho de uma celebridade com tempo livre, mas uma resposta direta a algumas estatísticas bastante alarmantes. Só em 2023, foram registrados mais de 4.000 casos de livros retirados de escolas nos Estados Unidos — um número assustador que parece estar aumentando. Em outros países, como Cuba, Venezuela e Líbano, a legislação permanece em vigor. criminalizar materiais críticos ao governoIsso demonstra que a luta pela liberdade de expressão é uma batalha global que ainda não foi vencida.
Até mesmo autores consagrados como Salman Rushdie e Olga Tokarczuk fazem parte desse catálogo de resistência. Para Francisca Pedro Pinto, gerente de marca da Livraria Lello, este projeto é vital porque o que está em jogo não é apenas o futuro da leitura, mas também a própria leitura. a capacidade da sociedade de imaginarSe limitarmos o que podemos ler, limitamos nossa capacidade de construir um futuro diferente, e é aí que a Biblioteca do Manifesto quer se posicionar de forma pacífica, porém contundente.
A influência da cantora nessa área em breve se estenderá ao Festival Literário de Londres, onde ela atuará como curadora. Parece que Dua Lipa levou seu papel muito a sério. ponte entre a cultura popular e o intelectualismoEla provou que é possível ser uma diva pop e, ao mesmo tempo, uma ativista engajada na defesa de autores que arriscam tudo por suas palavras. No Porto, sua biblioteca já se tornou um local de peregrinação para aqueles que acreditam que a leitura é, em si, um ato de liberdade.
Este refúgio literário oferece uma experiência completa que combina debates intelectuais com momentos de relaxamento, chegando a organizar degustações de vinhos portugueses para acompanhar as discussões sobre os livros. Não se trata apenas de folhear livros proibidos; é Criar uma comunidade vibrante Que ele ouse falar sobre o que outros preferem manter em silêncio. Afinal, como bem descreve o projeto, retirar um livro de uma biblioteca nunca é um ato inocente, e tê-los todos juntos em um só lugar é a melhor maneira de proteger nossa memória coletiva.

Mais do que apenas uma coleção de títulos
Ao entrar nas salas projetadas por Siza, os visitantes se deparam com histórias que vão do racismo institucional no sul dos Estados Unidos às distopias tecnológicas mais sombrias. O que une todas essas obras, segundo os organizadores, é a sua... capacidade de não ser esquecidoCada uma das 5.000 cópias disponíveis é uma pequena vitória contra o esquecimento e um convite para descobrir mundos que alguns prefeririam manter invisíveis ao público em geral, especialmente aos fãs mais jovens do artista.
Para completar o ciclo desta iniciativa, é evidente que a Biblioteca do Manifesto é o resultado de anos de trabalho do cantor britânico. consolidar seu lado mais humanistaO Porto ostenta hoje um farol de liberdade intelectual, lembrando-nos que as histórias mais poderosas são muitas vezes aquelas que alguém tentou silenciar em algum momento da história. É um ponto de encontro onde a coisa mais travessa e rebelde que se pode fazer é simplesmente escolher um livro da estante, sentar-se para lê-lo e depois partilhar o que se aprendeu com os outros sem medo de represálias.

